quarta-feira, 30 de abril de 2014

Memories 03


 O Pior Natal de Todos!


Esta é minha época preferida em todo o ano. O Natal, brilho, decorações, festas, neve, coleção de inverno, férias, ceia... Não poderia ser melhor. Meus aposentos já estavam no espírito natalino: “pisca-piscas” ganhavam as paredes, assim como os retratos de meus pokemons de gelo favoritos (Glaceon, Froslass,Smoochun e Articuno), uma árvore de natal encontrava-se rente a acama suntuosa, além das figuras de “papai-noel” penduradas sobre às portas.

Geralmente, meus pais promovem um grandioso baile no dia vinte e cinco de dezembro, para pouquíssimas milhares de pessoas da ala sociedade. Mas este ano será diferente. Mamãe e papai viajaram para assinar um grande contrato com o governo de Kalos, abrindo as portas para a instalação de no mínimo um Poke Mart por cidadela, me deixando aqui sozinha com uma matilha de empregados emprestáveis.

Convidei algumas amigas para uma festa do pijama aqui em casa. Chegarão às vinte e duas horas.

Os ponteiros de meu relógio de pulso indicavam que restam quinze minutos restantes até o horário marcado. Resolvi me arrumar. Abri a porta do meu closet à procura do pijama que havia encomendado de um renomado estilista de Hoeen especialmente para a ocasião. Despi-me e vesti-o. Assim que o fiz, deite-me sobre o leito, enrolando com um edredom aconchegante, pondo-me a ler um livro de minha escritora favorita, Clarisse Lispector, Perto do Coração Selvagem, para passar o tempo.

Já havia folheado cerca de trinta páginas, quando ouvi um estampido vindo da porta. ”Pode entrar!”, gritei, e a maçaneta girou instantaneamente. Ao tempo que a porta entreabria-se, uma figura corpulenta revelava-se. Era minha governanta, que apesar de feia é bem gentil. Sua vestimenta dizia o contrário: blazer, devidamente abotoado, e calça de linho preta, sapatos de ponta fina, cabelos presos em forma de poupa. Seus olhar rígido parecia que estava preste a decepar alguém, pensamento que era quebrado por sua voz doce e delicada:

-Querida, suas convidadas telefonaram avisando que não será possível contar com a presença delas.

-Todas?-indaguei, com a voz já úmida.

-Sim, docinho. Sem exceção.

Ela se retirou, me deixando sozinha, de novo. Como puderam fazer isto comigo?Meus pais, minhas amigas, até minha governanta a qual eu confiava plenamente... Todos!Comecei a chorar. Um turbilhão de emoções negativas possuiam-me naquele momento: tristeza, raiva, frustração.

Fui até a janela, que estava aberta para que a brisa entrasse e me apoiei sobre o para-peito. A poluição sonora e visual de Celadon conseguiu espantar todos aqueles sentimentos criando uma dor de cabeça terrível. Lógico que eu amava aquilo, mas não era hora.


As buzinas dos automóveis ganhavam de qualquer som que tentasse competir, zunindo feito grilos irritantes em meus ouvidos, enquanto as diversas luzes vinda de lugares imagináveis cegavam-me.Aquilo não ajudava muito.Resolvi olhar pro céu.Estava nublado, nem a Lua era visível.Deixei escapar um palavrão.

Retirei o pijama e coloquei minha roupa usual. Uma regata azul bebê e uma saia curta rubra. Retirei-me do quarto e desci a longínqua escada até o térreo. Fui surpreendida por minha governanta, que me aguardava no último degrau. Assim como eu, ela havia trocado de roupa, agora vestindo algo menos formal. Um vestido longo, elegante, vermelho.

- Vamos?- os olhos dela brilhavam ao olhar pra mim.

-Vamos?- repeti,desentendida.

-Para um lugar especial... Não me faças perguntas.

Obedeci a suas ordens. Pedi para o motorista prepara a limusine. Em poucos minutos, já enfrentávamos o caótico trânsito de Celadon, que segundo os telejornais, já acumulava duas horas quinze minutos de congestionamento. Para minha infelicidade, eles estavam precisamente corretos.

Decidi por abaixar o vidro preto do carro e pus minha cabeça para fora, em busca de ar fresco – sei que alguma motocicleta desgovernada poderia levar minha cabeça, mas, talvez, esta seria a melhor coisa que poderia acontecer no meu dia. Novamente desafortunada, pois nenhuma moto trafegava no momento, pelo contrário, um trio de crianças sujas e mulambentas andavam na calçada pedindo esmola carregando um balde cheio d’água contendo um pokemon azulado que eu logo reconheci como Horsea.

Levantei o vidro novamente, enjoada. E depois de tediantes incontáveis horas, chegamos ao que eu conhecia pelos livros como favela, mas minha governanta – seu nome era Sophie – insistia em dizer que o nome era periferia.Não fazia diferença alguma para mim, era tudo coisa de pobre mesmo.

Quando me dei por conta, Sophie já tinha me entocado dentro de sua casa e eu estava comendo churrasco numa comum “festa na lajem”. Não acreditei que tinha descido a aquele nível, joguei o petisco no chão e voltei para meu automóvel de luxo e disse para o motorista me levar de volta a minha mansão. Nunca iria perdoar Paula por ter trago-me até este local.

O motorista ligou a máquina e preparou-se para dar a partida quando me informou que alguém estava impedindo a passagem do carro.Desci revoltada, e por maldição do destino pisei numa poça de óleo e danifiquei completamente os meus sapatos novos. Quem quer que fosse iria enfrentar a minha fúria por estar tornando o meu dia cada vez pior.

Fiquei surpreendida quando os três garotos, e seu Horsea, se revelaram sentados na frente da limusine. Um deles, o mais velho aparentemente, levantou-se e caminhou em minha direção segurando aquele balde velho onde o cavalo-marinho, muito magro e com aparência péssima por sinal, nadava alegremente. Seu corpo estava muito sujo e exalava um cheiro nada agradável (ele sabia o que era perfume ou banho?).

-QUEM VOCÊ PENSA QUE É PAR...- ele jogou o balde o balde em minha direção e por reflexo o segurei, mas imediatamente após sentir o suor no mesmo, soltei-o.Pegue um pano em um dos bolsos e limpei minha mão, desejando imediatamente álcool.Que audácia!

-Moça, por favor, cuide do Walbble para nós. Nós somos garotos pobres, não temos condição de alimentá-lo corretamente ou da-lo uma boa condição para viver, e ele ainda é muito jovem para ser liberto na natureza. Ele é um bom Horsea! – o garoto e sua gangue fugiram velozmente, olhando para trás unicamente para dar o último adeus a seu fiel pokemon, que grunhiu em resposta.

-Leaf, o que aconteceu? – perguntou Sophie, saindo descabelada da porta de sua casa modéstia – Procurei-a em todo canto e não a encontrei.

-Fiquei com vontade ir embora, então pedi ao motorista que trouxesse de volta para casa, quando um grupo de moleques impediu a passagem do carro e pediu que tomasse conta desse pokemon ridículo.

-Oh, que gracinha – os olhos de Sophie brilhavam ao ver a pequena criatura aquática fazendo piruetas. Ela pegou-o e levou para dentro de casa e rapidamente voltou com ele agora num pequeno aquário mais confortável. Tentei tentou protestar, mas ela fingiu que não a ouviu.


Quando voltamos já era tarde da madrugada. Sophie alojou o aquário do Horsea imundo sob o meu criado mudo e me colocou para dormir cantando uma bela canção de ninar. Antes de cair no sono profundo, dei uma última olhada no nosso novo morador “Pokémon idiota”, pensei. Mal eu sabia que ele seria minha única companhia durante a cruel longa noite gélida.






                                   LEAF

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